vultos da república
A ALMA GÊMEA DE DAVI ALCOLUMBRE
Os prósperos negócios de um primo do senador

Osenador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) descende de uma família de judeus marroquinos que chegaram ao Brasil no início do século XX. Seus avós tinham uma mercearia em Macapá, mas, segundo relatórios do antigo SNI, a agência de espionagem da ditadura, fizeram fortuna com a extração ilegal de ouro em garimpos às margens do Rio Jari, na divisa entre Pará e Amapá, e o contrabando do metal até a Venezuela e os Estados Unidos. Nos anos 1980, mantendo a tradição familiar, os tios Alberto e Salomão, donos de uma rede de postos de combustíveis, também atuaram no comércio ilegal de ouro, de acordo com um relatório da Polícia Federal ao qual a piauí teve acesso.
No Amapá, a família Alcolumbre é uma potência local. Tem 35 empresas em atividade, cujo capital social remonta a 35 milhões de reais. O império dos Alcolumbre inclui, além dos 16 postos de combustíveis, 4 emissoras de rádio e tevê, 1 construtora, 1 metalúrgica, 4 empresas agropecuárias, 4 imobiliárias, lojas de variedades, 1 supermercado, 1 terminal portuário, 1 factoring e até 1 cemitério.
Da penca de tios e primos, Alcolumbre se aproximou de Pierre, filho do tio Alberto, doze anos mais velho que o senador, de quem é uma espécie de alma gêmea. Além de compartilhar a personalidade extrovertida, os dois também se cruzam nos negócios.
Pierre tinha uma vida relativamente modesta, mas depois da primeira eleição de Alcolumbre para deputado federal, em 2002, seu patrimônio explodiu, informam Camille Lichotti e Allan de Abreu, em reportagem publicada na edição deste mês da piauí. Das dezenove empresas em nome de Pierre e seus filhos, catorze foram abertas a partir de 2003, com um capital social, somado, de 19 milhões de reais. São imóveis rurais de quase 10 mil hectares, parte deles sobrepostos a um assentamento rural do Incra e a um quilombo. Uma parte das terras foi adquirida por Pierre com depósitos de dinheiro vivo na boca do caixa, feitos em Belém por uma beneficiária do auxílio emergencial durante a pandemia de Covid.
Ao longo dos anos, enquanto o patrimônio de Pierre engordava, o de Alcolumbre seguiu estável, ou até emagreceu um pouco – pelo menos no papel. Em 2014, quando se candidatou a senador, Alcolumbre informou à Justiça Eleitoral que seu patrimônio valia 1,13 milhão de reais, em valores corrigidos. Em 2018, houve uma pequena variação para cima, chegando a 1,16 milhão. Em 2022, oscilou para baixo, caindo para 1,15 milhão.
Sete pessoas ouvidas pela piauí sob anonimato para evitar retaliações afirmam que Pierre, na prática, opera em nome de Alcolumbre nos negócios. Indagado sobre sua relação com o primo, o senador disse que a pergunta lhe atribui “responsabilidade por atos e negócios privados de terceiro, com base em associações especulativas”. Afirmou, ainda que, “responsabilidade não se transfere por vínculo familiar” e concluiu que não lhe cabe “responder por aquisições patrimoniais ou recursos de terceiros”. O senador não respondeu com que frequência usa o escritório de Pierre.
(CAMILLE LICHOTTI E ALLAN DE ABREU – REVISTA PIAUI)



