Hoje é domingo, 5 de abril de 2026


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Papudiskina — O Samba-Enredo da Suspeição do Toffoli e outros no STF

⚖️ Carnaval da República ⚖️

Unidos do Autocuidado Supremo

Era carnaval em Brasília. Não tinha confete, mas tinha nota oficial. Não tinha serpentina, mas tinha sigilo. E no Sambódromo da República, desfilava a mais tradicional escola do poder: 🎭 Unidos do Autocuidado Supremo 🎭

Na comissão de frente, ministros dançavam com passos ensaiados: um para frente quando a câmera liga, dois para trás quando a pergunta aperta. O enredo do ano era ousado e conceitual:

"Com peneiras ao sol, ninguém vê a suspeição."

A bateria vinha afinada, batucando o velho refrão:
— "É legal, é legal… se for com o colega, é legal!"

🎪 Cada ala representava um princípio constitucional:
Imparcialidade freestyle
Devido processo seletivo
Transparência em fantasia de invisibilidade

O carro alegórico principal trazia uma enorme peneira dourada, reluzente, carregada por assessores invisíveis. A ideia era simples: proteger os ministros do Sol da Suspeição. Afinal, ninguém pode ser queimado se a luz não passa… ou se passa, finge-se que não esquenta.

No alto do carro, uma faixa tremulava:

"Aqui, quem julga, absolve."

O público perguntava:
— "Mas peneira não protege do sol…"
E a resposta vinha rápida, em coro:
— "Protege sim. Desde que todos finjam juntos."

O mestre-sala fazia reverência à porta giratória da ética: entrava cidadão, saía réu; entrava processo, saía narrativa; entrava a Constituição, saía interpretação "contextual".

A ala das baianas rodava com suas saias feitas de precedentes seletivos. Cada giro apagava um artigo, cada parada criava uma exceção. No centro, um cartaz pedagógico:

"Princípios não são violados.
São flexibilizados com carinho."

No camarote VIP, o povo assistia com aquela mistura de riso nervoso e cansaço cívico. Sabia que o desfile era bonito, mas o roteiro… sempre o mesmo.
Quando um ministro tropeça, o outro segura.
Quando a suspeição aparece, a corporação canta mais alto.

E o Sol?
Ah, o Sol da Suspeição continuava lá, inclemente, iluminando tudo. Mas, de baixo das peneiras, os ministros garantiam:
— "Não sentimos nada. Deve ser fake news climática."

"Ninguém solta a mão de ninguém —
especialmente se a mão estiver no processo."

E assim terminou mais um desfile.
Sem punição.
Sem autocrítica.
Sem sombra — só peneira.

O povo voltou para casa com a fantasia rasgada e a certeza intacta: quando a Corte que deveria guardar a Constituição começa a driblá-la em samba, a democracia vira passista cansada, dançando enquanto o chão esquenta.

Mas é carnaval.
E no Brasil, até a suspeição tira férias.

Daniel Oliveira da Paixão

Jornalista e cronista desta Tribuna Popular desde 1987



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