Unidos do Autocuidado Supremo
Na comissão de frente, ministros dançavam com passos ensaiados: um para frente quando a câmera liga, dois para trás quando a pergunta aperta. O enredo do ano era ousado e conceitual:
A bateria vinha afinada, batucando o velho refrão:
— "É legal, é legal… se for com o colega, é legal!"
O carro alegórico principal trazia uma enorme peneira dourada, reluzente, carregada por assessores invisíveis. A ideia era simples: proteger os ministros do Sol da Suspeição. Afinal, ninguém pode ser queimado se a luz não passa… ou se passa, finge-se que não esquenta.
No alto do carro, uma faixa tremulava:
O público perguntava:
— "Mas peneira não protege do sol…"
E a resposta vinha rápida, em coro:
— "Protege sim. Desde que todos finjam juntos."
O mestre-sala fazia reverência à porta giratória da ética: entrava cidadão, saía réu; entrava processo, saía narrativa; entrava a Constituição, saía interpretação "contextual".
A ala das baianas rodava com suas saias feitas de precedentes seletivos. Cada giro apagava um artigo, cada parada criava uma exceção. No centro, um cartaz pedagógico:
São flexibilizados com carinho."
No camarote VIP, o povo assistia com aquela mistura de riso nervoso e cansaço cívico. Sabia que o desfile era bonito, mas o roteiro… sempre o mesmo.
Quando um ministro tropeça, o outro segura.
Quando a suspeição aparece, a corporação canta mais alto.
E o Sol?
Ah, o Sol da Suspeição continuava lá, inclemente, iluminando tudo. Mas, de baixo das peneiras, os ministros garantiam:
— "Não sentimos nada. Deve ser fake news climática."
especialmente se a mão estiver no processo."
E assim terminou mais um desfile.
Sem punição.
Sem autocrítica.
Sem sombra — só peneira.
O povo voltou para casa com a fantasia rasgada e a certeza intacta: quando a Corte que deveria guardar a Constituição começa a driblá-la em samba, a democracia vira passista cansada, dançando enquanto o chão esquenta.
Mas é carnaval.
E no Brasil, até a suspeição tira férias.



