Por Francisco Xavier Gomes

A movimentação dos partidos políticos, com a finalidade de participar das disputas eleitorais deste ano, como já era previsto desde o ano passado, foi antecipada e ecoou como o esquenta do carnaval que começa neste fim de semana. Entre as personalidades políticas que colocaram seus blocos na rua, está o atual governador de Rondônia, Marcos Rocha, que gosta de ser chamado de coronel no exercício do mandato. Em uma longa entrevista concedida ao jornalista Robson Oliveira, que comanda o Podcast Resenha Política, o govenador falou sobre diversos assuntos e apresentou o prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, como seu pré-candidato preferido para a sucessão em Rondônia. Ao responder às perguntas, o governador fez várias declarações que beiram a campanha intempestiva, mas é pouco provável que as autoridades que fiscalizam a eleição não sejam acionadas. E ainda que fossem, não se verifica a possibilidade jurídica de criar qualquer problema para o prefeito, mesmo porque ele não estava no local, sejamos justos…
As pessoas que viveram as emoções do século XX, e que viram a entrevista, certamente reviveram várias lembranças do Biotônico Fontoura, medicamento criado há mais de 100 anos e cuja bula apresenta a cura para todas as doenças do mundo, perdendo somente para algumas lideranças religiosas deste século, porque estas possuem um poder de cura mais abrangente. O Biotônico Fontoura não prometia em sua bula a salvação divina. O fato é que Marcos Rocha ficou muito à vontade para esquecer todas as falhas de seu governo e declarar que ele resolveu problemas que duravam décadas. É muito provável que o governador do estado, em seus quase 8 anos de mandato, nunca tenha sido informado da realidade do HEURO de Cacoal, do Hospital Regional da Capital do Café e do Corpo de Bombeiros, além de outros setores do governo que foram completamente negligenciados nos últimos anos. E vale registrar, para fazer justiça: as instituições aqui citadas enfrentam inúmeras dificuldades por exclusiva falta de ação do governo, porque os profissionais que atuam diariamente fazem verdadeiros milagres e merecem nosso reconhecimento e respeito. A questão é a falta de investimentos e equipamentos nessas unidades, fato que pode ser comprovado com absoluta facilidade.
No caso do Corpo de Bombeiros, falta efetivo, faltam novos equipamentos, faltam investimentos… Isto tudo, porque a Secretaria de Segurança não percebe as dificuldades que criou. Para se ter uma ideia, até pouquíssimo tempo atrás, as ligações de emergências feitas pela população de Cacoal caiam numa linha cujo atendimento fica no município de Ji-Paraná. Após atender às chamadas lá, os bombeiros de Jipa encaminhavam os pedidos de urgência para a unidade de Cacoal. Isso é um verdadeiro absurdo!! Caso já tenha sido adotada uma medida para solucionar o problema, vamos fazer o registro posteriormente. Como é que um serviço de emergência tem um telefone de atendimento com essa dinâmica? Em Cacoal, como em todos os municípios brasileiros, o Corpo de Bombeiros tem uma atuação impecável e a população sabe muito bem disso. Mas imagine a ocorrência de um acidente grave em Cacoal, o que é muito comum, e a chamada de urgência ser atendida em outro município. A população de Cacoal não merece esse tipo de negligência da Secretaria de Segurança. Estranhamente, o governador disse, em sua entrevista, que, caso seja eleito, seu sucessor dará continuidade ao que ele faz. Se Adailton Fúria anunciar na campanha que vai manter a chamada de urgência do telefone do Corpo de Bombeiros em Ji-Paraná, ele será vaiado em praça pública, até mesmo pela edilidade cacoalense…
Outro grande problema que causa inúmeros transtornos para a população de Cacoal e todos os municípios atendidos no chamado Polo 2 de Saúde do estado é o sistema de regulação de pacientes que é concentrado na capital do estado. Este fato compromete toda a rapidez do atendimento e gera esperas que chegam a durar 3, 4, 5 anos para que um paciente consiga um atendimento. Claro que meu colega Robson Oliveira não fez perguntas sobre essas situações, porque, embora seja um jornalista brilhante, ele certamente não conhece essa realidade especifica de Nossa Amada Cacoal. O governador também não lembrou de dizer que, antes de seu governo, Cacoal possuía uma quantidade bem maior de leitos de UTI, mas que foram fechadas no decorrer dos últimos sete anos. Claro que ainda existem algumas, porque inutilizar todos os leitos seria uma tragédia. Como Cacoal é chamado pelo próprio governo de Polo de Saúde, é inadmissível que esta regional reduza a quantidade de leitos de UTI. Neste caso, talvez seja melhor conceder ao governador o benefício da dúvida, porque é provável que ele não saiba que o sistema de regulação de pacientes de Cacoal seja feito em Porto-Velho. Ninguém entende o motivo, porque o próprio governador prometeu, em sua campanha de reeleição, modernizar a tecnologia dos órgãos governamentais. Resta saber se Adailton Fúria, o pré-candidato favorito do coronel, vai fazer campanha prometendo manter essa situação…
Ao ser questionado durante a entrevista, por Robson Oliveira, sobre a realidade do Hospital João Paulo II, o governador disse que vai construir um novo hospital e que isto é uma das principais metas de seu governo. Até hoje não existe um imóvel para construir o novo hospital. Como é que alguém vai acreditar que isso vai acontecer este ano? Para justificar a situação do JP II, o governador disse que passou mal, certa vez, em Brasília, e que não tinha vaga em hospital público da Capital Federal. É muito provável que nos hospitais públicos de Brasília as autoridades não permitam internações em corredores, como acontece em Rondônia. Aliás, Brasília tem muitos problemas, principalmente políticos, mas os hospitais são organizados e muito bem equipados. Muitas pessoas de Rondônia são encaminhadas para fazer tratamento em Brasília. O fato inverso não ocorre e certamente não ocorre, porque a realidade de Rondônia, quanto ao atendimento de saúde, é desumana.
Finalmente, Rocha declarou que foi ele quem fez o projeto da duplicação da BR 364; que foi ele quem elegeu todos os deputados federais e que Fúria sempre reconheceu todos os projetos que o governo do estado fez em Cacoal. Quanto a isso, vamos deixar por conta da bula de Biotônico, porque são fatos que nunca aconteceram, mas que a imaginação popular dará conta de resolver. Melhor deixar as alegorias para a criatividade dos brilhantes carnavalescos que vão mostrar seu talento na Marquês de Sapucaí. Um excelente carnaval a todos… Tenho dito!!!
FRANCISCO XAVIER GOMES
Professor, Jornalista e Advogado



