POESIA: SOU CONSERVA, NÃO APODREÇO

No batuque da avenida iluminada,
Surgiu um enredo de fala afiada,
Uma família dita conservadora,
Em lata fechada, imagem provocadora,
Metáfora viva no brilho do chão,
Entre plumas, tambores e contradição.
Na alegoria vinha a tal conserva,
Rótulo antigo, tradição que preserva,
Vidro e metal guardando costumes,
Entre críticas fortes e velhos perfumes,
A arte do samba quis questionar,
O que deve mudar e o que deve ficar.
Disseram que o tempo não pode parar,
Que é preciso também destampar,
O mundo gira em transformação,
E sacode certezas no coração,
Que toda verdade precisa rever,
Para a sociedade crescer e viver.
Muitos viram ofensas na cena,
E a dor ecoou pela arena,
Cristãos ficaram chateados,
Com os valores ali comparados,
Sentiram que a fé foi exposta,
Como se fosse apenas uma aposta.
Nas redes, a chama se acendeu,
Cada lado seu grito ergueu,
Uns defendendo a liberdade da arte,
Outros dizendo que foi um desatre,
De princípios firmados na oração,
Que sustentam vida e direção.
Mas no meio da crítica e da lata,
Outra leitura também se retrata,
Pois conservar não é só prender,
É proteger para não apodrecer,
É guardar com zelo e intenção,
O que dá sentido ao coração.
Conservados com óleo prensado,
Mantemos o alimento guardado,
Óleo que sela, que gruda, que cuida,
Que impede que a essência se destrua,
Que preserva sabor e valor,
Mesmo em meio ao calor.
Quem não tem óleo, apodrece,
Sem proteção, tudo fenece,
A lata aberta ao descaso do ar,
Vê sua força se deteriorar,
Pois o tempo corrói sem cuidado,
O que não foi bem conservado.
Talvez a imagem da avenida,
Traga mais que crítica atrevida,
Mostre que há formas de conservar,
Sem deixar de dialogar,
Sem perder ternura e firmeza,
Nem abrir mão da própria certeza.
O samba é palco de discussão,
De metáfora, riso e tensão,
Entre o novo e a tradição,
Bate forte o tambor no chão,
Chamando todos pra refletir,
Sem precisar destruir.
A família na lata pode ensinar,
Que há tesouros a resguardar,
Nem todo conservado é prisão,
Pode ser zelo, pode ser proteção,
Depende do óleo que ali está,
E da fé que decide guardar.
E assim na avenida ficou a lição,
Entre crítica e devoção,
Quem tem óleo não se desfaz,
Permanece firme, encontra paz,
Pois não estraga com o vento,
Mas vive selado em fundamento.
E há políticos cruéis na arena,
Tratam a fé como coisa pequena,
Dizem que a família é passado,
Conceito velho, ultrapassado,
Esquecem que há força e raiz,
No lar que ora, trabalha e é feliz.
Em discursos buscam desconstruir,
Querendo a tradição diminuir,
Desvalorizam cristãos e seus valores,
Como se fossem retratos sem cores,
Mas quem tem óleo e convicção,
Permanece firme na fé e na missão.
Autor: Moiseis Oliveira da Paixão



