Hoje é segunda-feira, 6 de abril de 2026


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Raios, Multidões e Narrativas: o episódio que revelou mais do que a esquerda gostaria de admitir

Imagem ilustrativa da crônica

Há momentos na política em que os fatos se impõem com tal força que os adversários, incapazes de interpretá-los com serenidade, recorrem ao deboche como mecanismo de defesa. Foi assim após a mobilização liderada por Nikolas Ferreira, que começou como uma caminhada simbólica e terminou como um dos atos políticos mais expressivos deste início de ano, redefinindo o tom, a agenda e o grau de organização da direita no período pré-eleitoral.

Diante do impacto do evento, parte da esquerda não reagiu com análise, autocrítica ou leitura estratégica. Preferiu o caminho mais fácil: a ironia. O episódio da queda de um raio nas proximidades da Praça do Cruzeiro, em Brasília, durante a concentração do ato, foi imediatamente capturado por esse imaginário apressado e convertido, nas redes sociais, em uma espécie de "castigo divino". Pouco importou o óbvio: raios são fenômenos naturais, recorrentes no Cerrado, sobretudo em dias de instabilidade climática.

Mas a ironia da história — e aqui começa a crônica — é que foram exatamente esses setores que decidiram deslocar o debate do campo político para o campo espiritual. Ao fazê-lo, abriram uma porta que talvez não desejassem atravessar. Porque, se aceitarmos esse enquadramento, a leitura honesta dos fatos aponta para algo bem diferente do que tentaram sugerir.

O raio caiu. O risco era real. Havia milhares de pessoas reunidas em área aberta, sob chuva, em condições que qualquer manual de segurança classificaria como potencialmente perigosas. Ainda assim, apesar de atendimentos médicos e de feridos, não houve mortes. Nenhuma. A própria Secretaria de Saúde do Distrito Federal confirmou a ausência de óbitos. Em um país onde descargas elétricas frequentemente ceifam vidas humanas e animais — inclusive em episódios recentes no campo, onde dezenas ou centenas de cabeças de gado foram mortas de uma só vez por um único raio — o desfecho em Brasília não pode ser tratado como trivial.

Quem conhece minimamente a realidade rural brasileira sabe: um raio não pede licença, não escolhe vítima, não distingue ideologia. Mata homens fortes, animais de grande porte, destrói estruturas inteiras. Já houve casos em Rondônia, inclusive na região de Cacoal, em que rebanhos inteiros sucumbiram em segundos. À luz dessa experiência concreta, o que ocorreu na capital federal soa menos como juízo e mais como preservação.

Por isso, entre muitos dos que estavam ali, o sentimento não foi de medo, mas de gratidão. A interpretação que emergiu espontaneamente não foi a do castigo, mas a do livramento. Uma descarga elétrica em meio a uma multidão, sem que vidas fossem ceifadas, foi lida como cuidado — não como condenação. Como sinal de que, mesmo em circunstâncias extremas, algo conteve o pior.

É curioso notar como a tentativa de transformar esse episódio em maldição revela mais sobre o desconforto de quem observa do que sobre o acontecimento em si. Quando a política falha em oferecer argumentos, recorre-se ao sarcasmo. Quando o sarcasmo não sustenta a narrativa, apela-se ao misticismo seletivo. Tudo para evitar o essencial: reconhecer que a direita mostrou capacidade de mobilização, liderança clara e conexão com uma parcela expressiva da sociedade.

O Papudiskina de hoje não é sobre raios, nuvens ou fenômenos atmosféricos. É sobre leitura de sinais — políticos e humanos. E, às vezes, o sinal mais eloquente não está no barulho do trovão, mas no silêncio que se segue quando, apesar de tudo, vidas são poupadas. Isso, para quem tem olhos de ver, diz muita coisa.


Daniel Paixão é jornalista e escreve para esta Tribuna Popular desde 1987



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