Hoje é domingo, 5 de abril de 2026


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Quando a divisão vira método

Crônica

A nação serrilhada

Sobre a arte paciente de dividir um país até que ele não consiga mais se reconhecer como um

Daniel Oliveira da Paixão Desde 1987
Gênero
Crônica de Opinião
Colunista
Daniel O. da Paixão
Veículo
Tribuna Popular

Não foi de repente.
Não aconteceu por acaso.

A divisão do Brasil foi sendo construída aos poucos, como quem serrilha o chão antes de empurrar alguém para o abismo.

Primeiro vieram os rótulos. Depois, os recortes. Em seguida, as subdivisões. O cidadão foi sendo diluído em categorias, a pessoa transformada em identidade política, o indivíduo reduzido a um marcador. Onde antes havia brasileiros, passaram a existir grupos — muitos grupos — frequentemente em disputa entre si.

A esquerda aprendeu cedo que uma nação coesa é difícil de governar pela manipulação, mas uma sociedade fragmentada é facilmente conduzida pelo conflito. Assim, o consenso passou a ser tratado como suspeito, a ideia de um projeto comum como opressão disfarçada, e a noção de unidade nacional como algo quase indecente.

Criaram-se minorias, e depois subminorias. Movimentos que surgiram com reivindicações legítimas foram fatiados em ondas, correntes, vertentes e hierarquias internas. Feminismos que disputam entre si. Movimentos identitários que brigam por precedência moral. Grupos que deveriam dialogar passam a se vigiar, se acusar e se deslegitimar mutuamente.

"

O paradoxo é cruel: quanto mais se fala em diversidade, menos se tolera a divergência.

E, no centro desse labirinto de fragmentos, surge sempre a mesma figura: o Estado como árbitro absoluto, o partido como mediador indispensável, a liderança como tutora das identidades que ela própria ajudou a criar. Petismo, psolismo e outros "ismos" orbitam esse mesmo eixo: dividir para governar, fragmentar para controlar.

Enquanto discutimos linguagem, símbolos e pertencimentos, problemas concretos permanecem. A economia patina. A educação falha. A segurança se deteriora. Mas o conflito simbólico mantém todos ocupados — e enfraquecidos.

"Nunca nos divida em grupos pequenos demais para que não percamos a força."

Sabedoria atribuída a povos indígenas da Amazônia

É um aviso simples, quase óbvio, mas profundamente ignorado. A força não nasce da fragmentação infinita, mas da coesão entre diferentes. Unidade não é uniformidade. É pacto.

O que foi desconstruído ao longo dos anos não foi apenas o consenso político, mas a própria ideia de nação. Sem um mínimo denominador comum, resta apenas o conflito permanente — e uma sociedade em guerra consigo mesma não constrói futuro.

É preciso reagir.

Reagir não com autoritarismo, nem com silenciamento, nem com novas formas de opressão travestidas de ordem. Reagir exigindo o óbvio: uma nação plural, mas não fragilizada. Um país onde diferenças existam, discordâncias sejam naturais e até conflitos ocorram — mas todos resolvidos pela lei, não pela militância.

Lei aplicada a todos, sem distinção.
Sem privilégios.
Sem exceções morais.
Sem penas exageradas para uns e indulgência para outros.

Nem opressão, nem condescendência. Apenas justiça na exata medida do mérito e da responsabilidade de cada um.

O Estado deve existir, sim — mas onde precisa existir. Forte o suficiente para garantir a ordem, fraco o bastante para não sufocar a sociedade. Um Estado mínimo em pretensão, máximo em deveres essenciais. O resto cabe à livre iniciativa, ao trabalho, à criatividade e à responsabilidade dos cidadãos.

"

Uma nação não se sustenta apenas com território, bandeira ou língua. Ela se sustenta no tecido vivo das pessoas que a constroem todos os dias.

Sem elas, não há Estado que se sustente. Não há projeto que sobreviva.

Dividir pode ser útil para quem governa pelo conflito.
Unir é indispensável para quem quer um país de verdade.

E talvez seja hora de lembrarmos que não somos fragmentos concorrentes, mas partes diferentes de um mesmo todo — forte o suficiente para conviver com suas diferenças sem se destruir por causa delas.

Daniel Oliveira da Paixão
Jornalista, cronista e escreve para a Tribuna Popular desde agosto de 1987


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