O Brasil anda estranho.
Muito estranho.
Quando alguém emite uma opinião que desagrada certos grupos, logo aparece uma multidão pedindo investigação, punição, processo, linchamento moral e condenação pública. Não importa mais se houve crime de fato. Basta haver incômodo. Basta alguém se sentir ofendido. Basta contrariar o espírito da época.
E foi exatamente isso que voltou a acontecer depois das declarações do apresentador Ratinho sobre a eleição da deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
Ele falou de maneira rude? Em certos trechos, sim.
Exagerou? Também é possível dizer que sim.
Poderia ter se expressado de forma mais cuidadosa, mais elegante e mais precisa? Sem dúvida.
Mas uma coisa é reprovar o tom. Outra, muito diferente, é tentar transformar opinião em caso de polícia.
Esse é o ponto que me preocupa.
Numa democracia de verdade, as pessoas precisam ter o direito de expressar suas convicções, inclusive quando essas convicções desagradam setores barulhentos da sociedade. O debate público não existe para acolher apenas opiniões domesticadas, esterilizadas e autorizadas por fiscais ideológicos. Ele existe justamente para permitir divergências, desconfortos e contrapontos.
Ratinho, no fundo, estava questionando uma escolha institucional e simbólica. Pode-se discordar integralmente dele. Pode-se considerar sua fala inadequada. Pode-se responder com argumentos, contestar, rebater e até exigir retratação em pontos objetivamente injustos ou grosseiros. Tudo isso cabe no jogo democrático.
O que não deveria caber com tanta facilidade é essa sanha de judicialização da opinião.
Porque, se toda fala inconveniente virar ameaça de processo, o país deixa de ser um espaço de debate e passa a ser um ambiente de intimidação. E um povo intimidado não fala com liberdade; fala com medo. Mede palavras não por consciência, mas por receio. E quando a sociedade chega a esse estágio, a democracia começa a virar enfeite.
É claro que liberdade de expressão não é salvo-conduto para defender violência, perseguição ou agressão contra quem quer que seja. Mas também é claro que nem toda opinião dura, conservadora, biológica, moral ou cultural pode ser automaticamente empurrada para o campo do ilícito. Se fizerem isso, ninguém mais poderá discordar de nada sem antes consultar um advogado.
E convenhamos: isso não é normal.
Uma sociedade madura não responde a uma opinião polêmica com mordaça. Responde com argumento. Responde com inteligência. Responde com contraponto. O remédio para uma opinião considerada errada sempre foi, e continua sendo, outra opinião — mais forte, mais lúcida e mais convincente.
O problema é que estamos substituindo o debate pela patrulha.
E patrulha ideológica, venha de onde vier, é inimiga da liberdade.
Nem toda mulher menstrua. Nem toda mulher tem útero. Isso é um fato. Mas também é perfeitamente compreensível perceber que o apresentador estava usando uma linguagem imperfeita, popular e até bruta para expressar uma visão de mundo: a de que, na perspectiva dele, uma comissão voltada aos direitos das mulheres deveria ser presidida por uma mulher biológica. É dessa discordância que se trata. E discordância, numa democracia, não deveria ser enquadrada como crime moral.
O Brasil precisa reaprender a conviver com a diferença sem transformar toda divergência em escândalo judicial.
Precisa voltar a respirar liberdade.
Precisa abandonar essa tentação autoritária de querer punir quem pensa fora do script.
Porque a democracia não exige unanimidade. Exige tolerância ao dissenso.
E quando um país passa a punir não apenas o abuso real, mas também a opinião incômoda, ele já começou a trocar a liberdade pela submissão disfarçada de virtude.
No fim das contas, a pergunta é simples: queremos uma sociedade de cidadãos livres ou uma plateia amedrontada, treinada para repetir apenas o que é socialmente permitido?
Eu, sinceramente, ainda prefiro a liberdade.
Mesmo quando ela incomoda.




